Morreu a inocência do jogo. Ganharam as tácticas, as evoluções das máquinas, o descontrolo das divisas para pagar a peso de ouro e prender certas figuras que nem pisam sequer um relvado. Vender revistas, produtos capilares, novos penteados, as cores de diferentes tipos de chuteiras, a publicidade e o marketing. O profissionalismo veio substituir o amadorismo, mas este profissionalismo é de autoclismo. Escassos são casos que se contabilizam de quem honre um legado e  emblema de origem, cosido no peito por uma carreira ou longos anos. As formações e os jovens jogadores servem de tapete para os reis da fama e da nota aliciarem e sustentarem o futuro do clube que recebe as migalhas. Essas são as migalhas que permitem a sua sobrevivência. Esses sabemos quem são.

A hemorragia é contagiante, as feridas não se saram de uma noite para outra. Esses são problemas menores, acrescentam-se por via de actores secundários, por vezes terciários. Por detrás dos bastidores voam envelopes, viajam a incerteza de olhares certos que vêm trazer a suspeita. Há ainda os casos que se aproveitam para promover a sádica vontade e os desígnios desde a prostituição aos casos de abusos mais tarde ilibados por falta de provas. Quem prova não finge, apenas não admite, sofrerá repercussões.

E o diagnóstico não é nada favorável para quem assiste, pois também temos os olhos virgens contagiados por um golo que pode bem apagar uma péssima exibição, um jogador que não produz durante 85 minutos, marca ao minuto 90, e é visto como o super-homem.

Porque no futebol o que mais se glorifica e fica na memória é a bola dentro da baliza.

E cada vez mais são os recordes fabricados, desenterrados por artistas com truques mágicos de revistas a almanaques. Mais um jogador que ficará para história por bater um recorde de mais vezes que tocou na bola com luvas pretas numa partida em que a neve cobre o relvado acima de X metros e os números na assistência são 5 mil espectadores, a pior da época para o clube Granizo FC. É frequente na actualidade o que conta são os dados estatísticos.

O que interessa do gesto técnico e da poesia de um corpo que em movimento  parece que serpenteia em câmara lenta como serpente por entre as presas que enfrenta?

E de que valem as assistências como quem faz pizzas e distribui ingredientes, mas como deixa cair um ingrediente, neste caso falha um passe, é visto como mau jogador? Pouco muito pouco, apenas para um grupo selecto.

Mas se este fosse o único dos problemas que o futebol apresenta não estaríamos necessariamente a falar da morte da inocência. Na verdade há factores que acentuam mais a crise mais não seja porque ainda temos que lidar com a culpa. Com os atentados de ataque às arbitragens por parte de todos os clubes, claro isto é em caso de insucessos ou derrotas. Para cá não interessam nomes, todos têm culpa no cartório. Já se navegam nestes mares e ainda nem Pedro Álvares Cabral ou Diogo Cão tinham feito as descobertas, passo a hipérbole.

Quem parece também sofrer é a crónica bem-feita no jornalismo sem realçar o clubismo, a exibição de um jogador ou o desportivismo.

O motor que alimentava o futebol e o civismo já só alimenta a controvérsia.

Para além do mais há o desrespeito intenso pelo que lendas deixaram, feitos que não são apenas golos, recordações de tempos que não vivemos e se ouvimos falar deles é porque resistiram o suficiente para serem tidos como o que são lendas.

Mas essas devem ser transmitidas aos nossos filhos, aos nossos netos, com o mesmo carinho, também lhes iremos falar dos actuais ícones, porque apesar de morta a inocência está viva parte da essência que suporta a magia. Os adeptos e são esses que permitem a subsistência em tempos de crise. Sem poder usar bandeiras em alguns recintos, sem poder estar levantados nas centrais dos estádios, porque há quem pague para ver sentado e assim está a obstruir a visão. Não desista, ainda há esperança, mude de bancada, junte-se aos malucos e afamados que não se calam, que puxam seja na vitória ou na derrota. As claques que tanto servem para o bem como para o mal. Não podemos enterrar a paixão que temos num baú saudosista, há que lutar para mudar o panorama do mundo e do estado do futebol modernista.

Por onde andam as bandeiras, a alegria nas ruas em pleno dia de jogo, a confraternização em estados rivais? Os cânticos de incentivo à equipa em vez das picardias?

A originalidade nos tifos? Por certo o que se vê é a violência e um atestado de superioridade por se ser o maior da sua vila.

E se é assim que os interesses vigentes dos dirigentes que tentam aniquilar o que é sagrado para um miúdo que jogava com amigos quer seja de pés descalços ou ténis desgastados ou que trocava cromos da Panini do Euro e Mundial. E se assim que querem ver famílias impedidas de ir a jogos por preços não acessíveis e apenas o lucro das bilheteiras? E se assim que hoje não se pode ser o pai que educa o filho a amar a inocência de um jogo que deixou há muito de o ser.

Então podemos mesmo afirmar a morte certa da inocência de um prazer de todos nós.

O jogo.

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